Manauaras reciclam só1% do lixo

Gisele Rodrigues / Dez Minutos


Manaus – Um papel de chiclete, uma latinha de refrigerante, uma sacola de supermercado – esses materiais fazem com que, em média, cada habitante de Manaus produza, por dia, 1,350 quilograma de lixo. Segundo dados da Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp), no ano passado, mais de 1 milhão de toneladas de resíduos sólidos foram despejados no aterro municipal e 1% deste material foi destinado a projetos de reciclagens.

O hábito da separação dos materiais recicláveis como papéis, vidros, plásticos e metais, do restante do lixo ainda não é uma realidade da população manauara. Neste ano, das 546.019 toneladas de lixo, apenas 5.043 foram destinadas à reciclagem em Manaus, o que corresponde a 2% do total.

Localizado no quilômetro 19 da Rodovia AM-010, que liga Manaus a Itacoatiara, o Aterro Sanitário de Manaus possui vida útil de apenas mais cinco anos, segundo informou o secretário da Semulsp, Paulo Farias. O local abriga o lixo de Manaus, comprimindo e espalhando os resíduos sólidos com tratores para aumentar a vida útil do aterro.

Para Farias, a consciência ambiental vem aumentando, mas ainda falta um longo caminho a ser percorrido, no que diz respeito à coleta seletiva. Segundo ele, a taxa de crescimento do lixo domiciliar é de 1,2% ao ano, ao passo que a população manauara registra um crescimento populacional de 2,7% a cada 12 meses. Resultado obtido, conforme o secretário, principalmente por meio da redução do peso das embalagens.

“A taxa de crescimento do lixo vem crescendo menos que a população, vem diminuindo ao longo dos anos. Uma lata de alumínio, hoje, pesa 47% menos que nos anos 1980. Com certeza melhorou, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Nos próximos anos deveremos ter uma mudança nos padrões de consumo e hábitos de coleta”, afirmou.

Reciclagem

Manaus dispõe de cinco Pontos de Entregas Voluntárias (PEVs), além de 12 roteiros de coleta seletiva porta a porta. Os PEVs estão localizados no Parque do Mindu, Parque dos Bilhares, Lagoa do Japiim, Fórum Henoch Reis e na praça do bairro Dom Pedro. A reciclagem beneficia 170 catadores em Manaus, segundo dados da Semulsp. Um desses beneficiados é o catador de recicláveis Marlon Araújo, 27, que atua no PEV localizado no bairro Dom Pedro.

Onde a maioria vê lixo, o catador vê oportunidade de renda. Para ele e para cerca de 50 pessoas que fazem parte da Associação de Reciclagem e Preservação Ambiental (Arpa). “Primeiro de tudo é material reciclável, para começar. Isso aqui não é lixo, é material reciclável. Lixo é material orgânico”, alertou ele.

Com orgulho, Marlon fala da profissão que mantém sua família e proporcionou a mudança do padrão de vida da família. “Somos uma família de catadores. Meus filhos pequenos que ainda não sabem ler aprendem dentro de casa a fazer a separação dos materiais. Eu coloco sacolas na parede, para separar e ensino: olha, isso é para colocar nessa do meio, isso é para colocar naquela ali e eles aprendem”, disse.

Ele relata que chegou a Manaus desempregado e, por meio da mulher, conheceu o trabalho de reciclagem. “Hoje (sexta-feira) é 23, né? Hoje eu faço dez anos e 23 dias que trabalho com material reciclável. É uma data importante e eu sempre me lembro. Através desse trabalho eu já mudei muito a minha vida, hoje eu sou marceneiro profissional, conquistei muita coisa viu? Graças a Deus não falta nada dentro de casa”, afirmou.

Por semana, cerca de 14 toneladas de garrafas PET, entre outros materiais, são deixados no Ponto de Entrega Voluntária (PEV) do bairro Dom Pedro, na zona oeste de Manaus. O quantitativo é residual na avaliação do catador.

“Manaus tem mais de 2 milhões de habitantes e, se por exemplo 5% viesse aqui (PEV Dom Pedro), só hoje (sexta-feira) isso aqui já tava lotado. É daqui que muita gente tira o seu sustento, além de ser uma forma de preservar o meio ambiente. Tudo é reaproveitado”, disse.

Computadores, televisões eletrodomésticos, cadeiras de plástico quebradas, brinquedos, roupas e até óleo de cozinha. Tudo é reaproveitado, segundo Araújo. No caso das roupas e brinquedos ele conta que um projeto da associação leva os brinquedos para as crianças carentes do interior do Estado.

“O plástico vai para uma fábrica que vai ser triturado e vai virar garrafa PET de novo, o plástico da sacola vai virar cadeira de corda, tira de sandália. O papelão é  do mesmo jeito, ele vai para uma prensa, vira fardo, daí vai para uma fábrica que vira papelão de novo, vai ser triturado do mesmo jeito”, explicou ele sobre a destinação dos materiais.

Segundo o catador, a única exigência é não misturar resíduos orgânicos ao material reciclável. “Não precisa, que aqui mesmo a gente separa plástico, papelão… deixa tudo separadinho. Basta trazer que a gente separa”, disse.

Araújo ainda lamenta a parcela pequena de empresas preocupadas com a coleta seletiva. Segundo ele, no ponto que atende a zona centro-oeste da cidade, apenas duas empresas dão a destinação correta aos papelões e plásticos descartados.

“Geralmente, eu que falo sobre a importância, que é pra ele poder vir mais. De melhorar o meio ambiente, de não jogar por aí. As empresas deixam para o lixeiro levar sendo que poderiam deixar aqui com a gente”, lamentou.

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