Mãe de dançarina denunciou esquema de prostituição, diz Polícia Federal

Manaus – A denúncia da mãe de uma dançarina sobre a proposta de viagem a Coreia do Sul para apresentações artísticas e exploração sexual foi o ponto de partida para a operação Salve Jorge, deflagrada nesta sexta-feira (29), pela Polícia Federal. No total, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão e cinco mandados de condução coercitiva, expedidos pela 4ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado do Amazonas. As pessoas foram ouvidas e liberadas ainda na manhã de hoje.

“A operação surgiu da denúncia da mãe de uma bailarina, que seria, inicialmente, levada para China, para realizar apresentações típicas amazonenses. Mas depois descobriram que o local era a Coreia do Sul e a mãe estranhou”, disse a delegada Jeane Silvestreli Tufureti, da Delegacia de Defesa Institucional da PF. “Depois disso, descobrimos que a empresa estava utilizando a Polícia Federal como confirmação e começamos a investigar”.

Outro ponto que levantou as suspeitas da polícia foi o tipo de exigências feitas pelo anúncio da empresa no Facebook. “Uma das exigências para integrar o grupo da viagem não era saber dançar, mas, sim, ser bonita, ser maior de 18 anos e ter altura mínima. Para o homem era de 1,70 e para mulher 1,65”, informou a delegada.

Conforme Jeane Sivestri, no decorrer das investigações, a polícia identificou que se tratava de uma organização criminosa. “Temos depoimentos de pessoas que foram convocadas e foram questionadas se queriam se prostituir”, disse a delegada, ressaltando que empresários coreanos estavam envolvidos no patrocínio. “As pessoas levadas fariam apresentações quatro vezes por dia, no prazo de três meses. Eles iam levar 15 pessoas e as performances seriam em parques, hotéis e cassinos”.

Conforme a delegada, esta é a primeira fase da operação. Ainda segue em investigação se a empresa já encaminhou outras meninas. “Existem outros grupos da Amazônia que levam essas pessoas para lá”, comentou Jeane. “Temos elementos que as pessoas tinham essa conotação sexual. Algumas não são dançarinas, são modelos que querem apresentar a sua beleza”.

Durante a operação foram apreendidas passaportes, celulares, pen drives e CDs. Conforme a delegada, o material será analisado e, se for comprovado crime, será solicitada a prisão preventiva dos envolvidos. “Foram realizadas intercepções telefônicas e apreendemos todo tipo de mídia para que possamos chegar aos coreanos. Temos alguns depoimentos de pessoas que não quiseram se identificar e disseram que existe realmente prostituição”, disse Jeane. “Alguns dos que foram ouvidos não são os cabeças, vamos analisar até que ponto eles sabem”.

Depoimentos

Uma das pessoas ouvidas nesta manhã foi o Udson Elias Barros, dono da Brazil Amazon Shows & Productions, que recrutava jovens pelas redes sociais para apresentações fora do País. Segundo a delegada, ele confirmou que a empresa é dele. “O Udson confirmou que existia a empresa de  apresentações de estrangeiros em outros países. Eles ofereciam passagens aéreas, todos os custos do visto, moradia, alimentação e mil dólares por mês”, disse Jeane. “Eles estavam apenas negociando a saída dessas pessoas, muitos dos envolvidos já tinham visitado esses países como Coreia do Sul e China”.

Girlan Araújo também prestou esclarecimentos na sede da Polícia Federal, mas não quis se pronunciar sobre o assunto para a reportagem. A mulher dele, Dayane Rodrigues, de 30 anos, negou que o marido faça parte de uma organização criminosa e garantiu que ele não tem vínculo com a empresa citada na operação. “Fomos chamados para fazer parte do corpo de dança, não tem nada a ver com prostituição. Jamais na minha vida, eu ia imaginar que, de manhã cedo, ia ter policial batendo na minha porta, revirando a minha casa. Não entendo da onde surgiu essa possibilidade”, afirmou.

Dayane contou que ela e o marido são dançarinos e que já viajaram para Coreia do Sul, em 2012, para dançar em parques temáticos. “Eu fui, trabalhei, ganhei o meu dinheiro honestamente, eu e o meu marido. Não existe prostituição”, disse a dançarina. “Fui com visto de trabalho, o consulado viu o dia que eu ia entrar e sair daquele país. Era salário pago em dia e nada de errado aconteceu”.

Por meio do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) da empresa, a equipe de reportagem chegou ao endereço da Brazil Amazon Shows & Productions, na Rua São Lucas, 50, bairro Nova Esperança, e constatou que o número informado não existe no local. Ao entrar em contato pelos números divulgados na página do Facebook, as pessoas que atenderam as ligações disseram desconhecer a empresa.

Operação

A ação da PF contou com, aproximadamente, 30 policiais. A deflagração da operação Salve Jorge ocorre na véspera do Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, dia eleito pela Assembleia-Geral da ONU, e marca a participação da Polícia Federal na ‘Campanha Coração Azul’, que visa alertar a sociedade sobre o tráfico de pessoas.

Um inquérito policial está em andamento, se for comprovada a participação dos envolvidos, eles podem responder pelos crimes de promover ou facilitar a saída de estrangeiros com objetivo de exploração sexual, organização criminosa e de inclusão de informação falsa.

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