Em Manaus, cardiologistas pediátricos deixam de fazer cirurgias por falta de material

De Gisele Rodrigues

Manaus – Cardiologistas pediátricos de duas empresas que prestam serviço para o Estado denunciam a falta de materiais para cirurgias e remédios na Fundação do Coração Francisca Mendes, antigo hospital universitário. Por causa da falta de estrutura, desde a última quinta-feira (06), segundo os médicos, nenhuma cirurgia eletiva está sendo realizada no local e apenas as cirurgias emergenciais estão sendo atendidas. De acordo com o cardiologista pediátrico Ronaldo Camargo, atualmente, mais de 60 crianças com problemas cardíacos aguardam uma cirurgia no hospital.

A falta de pagamento, elencada como generalizado na instituição, também tem prejudicado o atendimento das crianças cardiopatas. Conforme Camargo, técnicos, enfermeiros, segurança, fornecedores e até a empresa de alimentação e limpeza estão sem pagamento dos serviços prestados. No caso dos cardiologistas pediátricos, segundo ele, os salários estão em atraso há nove meses.

“Nós tememos que o serviço seja interrompido, são muitas crianças à espera de um atendimento. Todos os setores entraram em colapso. E isso não é um problema só do Francisca Mendes, que está pedindo socorro, a saúde está a míngua de um serviço essencial num caos generalizado”, desabafou o médico.

Conforme Camargo, no mês passado, apenas 16% dos medicamentos solicitados à Central de Medicamentos do Amazonas (Cema) foram encaminhados para a unidade. Metronidazol, dimeticona e até mesmo dipirona faltam na área pediátrica do hospital.

Antes do Serviço de Cardiopediatria ser implantado na Fundação do Coração Francisca Mendes, as cirurgias cardiopediátricas estavam disponíveis na rede pública do Estado somente por meio de serviços conveniados ao Sistema Único de Saúde ou com o apoio do Programa de Tratamento Fora de Domicílio (TFD).

 

Coraçãozinho

Além das cirurgias, a cardiologista pediátrica Suely Regina Telles ainda aponta a precariedade dos atendimentos em resposta ao exame de oximetria de pulso, mais conhecido como Teste do Coraçãozinho, nas maternidades da capital. Usado para detectar e prevenir problemas cardíacos nos recém-nascidos em toda rede pública, o exame é obrigatório desde 2014.

Segundo a médica, o teste permite identificar precocemente se o bebê tem alguma doença grave no coração e, em caso positivo, o paciente é submetido ao exame de ecocardiograma para confirmar o diagnóstico. Mas a confirmação, em decorrência da quebra de contrato com as empresas Cecard e Cardio Baby, contratantes dos especialistas, é realizada apenas em crianças que apresentaram quadros emergenciais. A cardiologista explica que a equipe de seis médicos realiza os exames com apenas dois aparelhos itinerantes.

Conforme Antonio Carlos Silva, também cardiologista pediátrico, cerca de 30% das crianças cardiopatas sustentam até um ano a doença e precisam de intervenção cirúrgica, mas um quantitativo de 5% precisa do procedimento no período máximo de até 15 dias. “Difícil mesmo é quando esse 5% é seu filho. A gente está parando porque não tem estrutura, se fosse pelo salário a gente já tinha parado, tem 9 meses que a gente trabalha voluntariamente. Mas, de verdade, a gente faz pelas criancinhas que dependem da gente para viver, para dar continuidade à vida”, disse.

 

Manifestação

Uma manifestação com mães de crianças cardiopatas será realizada, segundo Rocha, na próxima segunda-feira (10). O objetivo, de acordo com Gisele Rocha, 33, mãe da Sofia, de 2 anos, que descobriu uma cardiopatia dois dias depois do nascimento, é chamar atenção quanto ao descaso com o setor de pediatria do hospital e reivindicar melhorias.

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) não se manifestou sobre o assunto até o fechamento desta edição.

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