Rainha do Soul, Aretha Franklin morre aos 76 anos

O que a tornou a Rainha do Soul, uma das grandes divas da música do século, é o modo como transplantou a matriz 'gospel' a outros gêneros populares, como o jazz, o blues, o pop

Estadão Conteúdo

São Paulo – A Rainha do Soul Aretha Franklin morreu nesta quinta-feira (16), aos 76 anos, de acordo com informações da agência The Associated Press. Segundo seu agente, ela estava em sua casa em Detroit.

Arteha Franklin (Foto: Divulgação)

Aretha era uma força da natureza. A voz de enorme tessitura era capaz de alcançar agudos extremos, e ao mesmo tempo flutuar com segurança nos registros graves, sem contar o vibrato característico que acrescenta refinadas pitadas de balanço em seu jeito único de cantar. Aretha flutua entre as notas, ora retardando, ora acelerando em momentos inesperados. Mas o que a tornou a Rainha do Soul, uma das grandes divas da música do século, sem dúvida é o modo como transplantou a matriz ‘gospel’ a outros gêneros populares, como o jazz, o blues, o pop.

Basta ouvir em sequência suas primeiras gravações, desde a primeira, de 1956, quando ela tinha 14 aninhos, disponível nas mídias digitais como Aretha Gospel. Na primeira faixa, There is a fountain filled with blood, apenas um órgão e seu próprio piano a acompanham; fiéis repetem “yes, yes” a cada verso. É de arrepiar. Aliás, se ouvir He will wash you white as snow, em que o coral dos fiéis “responde” a cada verso com versos e palmas, você vai entender por que o gospel, nascido no sul dos Estados Unidos, ainda no século 19, é a matriz das músicas negras dominantes até hoje no universo das músicas populares. Sem concorrência.

Cinco anos depois, Aretha, com 19 anos, gravou um disco com o grupo de Ray Bryant, um dos pianistas de jazz mais blueseiros naquele início da década mágica de 1960. Ela toca e também toca piano, ao lado de Bryant. Ouça o clássico de Gershwin It ain’t necessarily so, da ópera negra Porgy and Bess. A interpretação tem bastante a ver com Dinah Washington.

A Columbia, sua primeira gravadora, que a contratou ainda nos anos 1950, queria fazer dela a nova cantora-sensação de jazz. Mas Aretha só encontrou o rumo definitivo em meados da década de 1960, quando passou a gravar para a Atlantic. De lá para cá, foram 18 Grammys, dezenas de milhões de discos vendidos. E o status de “Rainha do Soul” (ela foi coroada em 1967, em Chicago, pelo DJ Pervis Spann). São daquela década sucessos planetários como Chain of fools, Spirit in the dark e Think.

No final do século, 1999, saiu uma biografia autorizada de David Ritz. Insossa, oficialesca. Em 2014, Ritz publicou o verdadeiro tesouro que colhera em suas pesquisas. Apesar dos protestos de Aretha, o livro altera o modo como a conhecemos. O maior mérito do livro é mostrar o profundo, decidido engajamento político da cantora na década de 1960 – ela cantou com Mahalia em 1963 para arrecadar fundos para a Grande Marcha a Washington de Martin Luther King e apoiou publicamente Angela Davis, militante pelos direitos civis dos negros. Tudo refletido em memoráveis canções como “Respect”, “Think”, “(You make me feel like) a natural woman” e “Chain of fools”, todas gravadas na Atlantic.

Filha do Delta

Aretha é “filha” musical da região do Delta do Rio Mississippi, é bom não esquecer – descendente direta da grande Mahalia Jackson e de Clara Ward. Bendito delta que pariu gênios do blues do porte de Robert Johnson, Son House, Howlin’ Wolf, Muddy Waters e B. B. King, entre tantos outros. Ainda criança, cantava no coral e participava dos cultos na igreja, compartilhando as suingadas pregações do pai, o reverendo Clarence, que inspiraram ninguém menos do que James Brown, o mago da soul music.

Mas em casa, sentadinha na escada junto com os irmãos Erma, Cecil e Carolyn, ouvia pianistas como Art Tatum e Nat King Cole dedilharem o piano da sala. Outros visitantes ilustres eram Oscar Peterson, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Billy Eckstine, Lionel Hampton. A cantora Dinah Washington era uma espécie de madrinha das crianças: ensaiava com elas. Esqueci de dizer: além dos irmãos, acotovelavam-se também naquela escada miraculosa amigos como Diana Ross e Smokey Robinson.

Por um belo texto de David Remick para a New Yorker em 2014, ficamos sabendo que ela escrevia a parte de piano, a harmonia de base e os breaks da bateria desde “Chain of foods” até “Natural woman”. Remick a considera “a maior cantora da história da música popular do pós-guerra”. E resume algumas de suas inovações: “Só a partir de ‘Amazing Grace’, sua gravação de 1972, ela passou a receber os créditos devidos. É portanto surpreendente, embora não devesse ser, ficar sabendo que ‘Lucky old sun’, de Ray Charles, e a versão de Otis Redding para ‘Try to a little tenderness’ se inspiraram nas gravações de Aretha destas canções; que ela mesma gravava em overbuds suas muitas linhas vocais sete anos antes de Marvin Gaye tornar famosa esta técnica em ‘hat’s going on’; que Eric Clapton ficou intimidado de tocar guitarra com ela; que sua gravação de 1967 de ‘Respect’ de Otis Redding formatou o modelo de uma soul music socialmente consciente e comercialmente viável por muitos anos; que Gaye se sentiu recompensado quando ela cantou sua ‘Wholly Holy’ em ‘Amazing Grace’ – o disco com o qual, além disso, Aretha ajudou a ‘inventar o gospel moderno’”.

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