Dez vezes Mercedita de La Cruz

Kamilla Vieiralves / portal@d24am.com

Manaus – Conseguir ficar dez anos em cartaz é uma proeza para poucos espetáculos. Muitos nem sequer chegam a subir a um palco de fato, antes de sumir no circuito cultural, mas, vez ou outra, surgem surpresas. Assim foi com ‘A herança maldita de Mercedita de La Cruz’.

Escrita por Sérgio Cardoso, com direção de Chico Cardoso, o espetáculo estreou em dezembro de 2006, no Teatro Amazonas, para um público de mais de 600 pessoas e logo se tornou um clássico do teatro amazonense, fato inesperado até mesmo para os envolvidos.

“Não sabíamos que ia estourar. Aquela mágica noite já nos mostrou o sucesso da peça, que, depois, foi ao Rio de Janeiro, Acre e Amapá e rendeu prêmios à direção e ao dramaturgo”, relembra o ator e produtor Michel Guerreiro.

A história é, na verdade, trágica e remonta a Manaus das décadas de 1940 e 1950, após o fim do ciclo da borracha. É nesse cenário que os personagens precisam sobreviver, mas de uma forma engraçada. “É um texto histórico”, afirma o ator Nivaldo Mota. “É lúdico e bem humorado, com um contexto dramático importante. Nessa época, muitos barões da borracha se mataram em função da falência e nós retratamos esses sentimentos de soberba, ganância e ambição de uma forma engraçada, sem deixar a crítica de lado”, comenta.

Assim, no texto, o autor recria Manaus como Lazone, uma cidade quase fantasma que se alimenta do ódio e do desejo de vingança daqueles que permaneceram. É no marasmo dessa cidade que Mercedita de La Cruz, famosa modista de noivas, transforma-se na principal vítima do ódio e da vingança de sua própria família.

“Ela é uma costureira que vai à falência e não conta para ninguém. Passa a viver de aparências e a enganar todo mundo”, conta Nivaldo. “O diretor, então, escolheu atores homens para interpretar as personagens femininas porque a caracterização, os trejeitos das mulheres, são mais caricatos. E cada personagem tem uma fundamentação fantástica”, completa o ator.

Uma década depois, a peça já foi vista por milhares de espectadores — alguns mais de uma vez —, mas, por algum motivo, parece não perder o encanto. “É uma peça muito solicitada, que caiu no gosto popular. Nós até já tentamos desistir dela, mas não conseguimos. Recentemente, recebi uma mensagem de uma pessoa que disse já ter visto a peça várias vezes, mas que vai ver de novo”, conta Michel Guerreiro.

Amadurecimento

Portanto, quem for assistir pela primeira vez ou reencontrar os personagens do espetáculo vai descobrir que o tempo pode ter feito muito bem a Mercedita. “O público vai poder ver o gás, a maturidade que a peça tem e nós, atores, tentando recriar a mágica que fez da peça o que ela é. Nós também estamos nos reencontrando com esses personagens, e, dessa vez, teremos um ator novo, trazendo uma nova dinâmica”, afirma o ator e produtor.

O elenco terá a formação original, com Michel Guerreiro, Nivaldo Mota e Arnaldo Barreto. A exceção será Hely Pinto, que chega para substituir Paulo Altallegre, que está filmando cenas na próxima novela das 21h, da Rede Globo, ‘A Força do Querer’.

A missão será, mais uma vez, levar ao público uma reflexão, da forma mais cômica possível. “Na peça, cada personagem tem o seu interesse pessoal e acaba deixando a família em segundo plano, o que acaba matando uns e enlouquecendo outros. Por isso, acho que a lição mais importante é a questão familiar. Não esquecer que o relacionamento com a família tem que ser maior que qualquer interesse”, finaliza Nivaldo Mota.

Para o futuro, o projeto ‘Mercedita 10 anos’ prevê a venda de DVDs da peça para os fãs, uma nova temporada, ainda sem data, e a realização de ‘Mercedita – O Filme’, com, basicamente, toda a equipe da peça e mais alguns convidados.

SERVIÇO

O quê: ‘A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz’
Quando: 5 de março, às 19h
Onde: Teatro Amazonas
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

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